sábado, 27 de agosto de 2011

Cosete Ramos - Usando o cérebro

Por: Rebeca Oliveira
brasilia em dia
A professora e doutora em Educação, Cosete Martins Ramos, orgulha-se de ser pioneira no Distrito Federal. Chegou a Brasília em 1960, participando de todas as festas de inauguração da nova capital. Foi líder do primeiro grêmio estudantil da cidade, e esteve entre as nove primeiras mestras formadas em solo brasiliense. Na formatura, apadrinhada pelo presidente Juscelino Kubistchek, emocionou-o por sua já revelada paixão pela cidade, que estava apenas em seu início.
De próprio punho, Cosete recebeu de JK, a mensagem que tomou como guia para sua vida profissional: “O discurso da oradora da turma [...] trouxe uma nota admirável à reunião. Revelou tal altura intelectual, tal maturidade de cultura, que olho agora mais tranquilo o destino da educação no planalto”.
Com apenas 18 anos, decidiu: nunca mais pararia de aprender e ensinar. Lecionou em escolas da capital e na Universidade de Brasília, fez mestrado em Supervisão e Administração na Califórnia, como também doutorado em Educação. Por 25 anos trabalhou no Ministério da Educação, comandando programas que mudaram a vida de milhares de escolas e estudantes do país.
Constantemente indo ao exterior participar de congressos e seminários, obteve um conhecimento invejável: escreveu mais de 50 livros e, entre todas as palestras que concedeu, já falou para mais de 350 mil pessoas. Na entrevista, revela a preocupação com os rumos da educação brasileira, onde atua a mais de 20 anos. “Há, realmente, uma atitude negativa de comodismo da escola brasileira de não mudar, deixar como está”, avalia a professora.
- Como promover uma revolução no ensino brasileiro?
- O ensino brasileiro precisa de novos conhecimentos, tanto em termos de desenvolvimento das potencialidades humanas, quanto em termos das novas estratégias para os novos tempos. Os professores brasileiros precisam estudar, precisam ter acesso àquelas pesquisas que os professores das escolas do primeiro mundo têm. Então, por exemplo, toda essa pesquisa de “Brain Based Learning” – Aprendizagem Baseada no Cérebro, que nos diz como o cérebro aprende bem, e como o cérebro aprende mal, ou não aprende, essas pesquisas, os professores brasileiros precisam ter acesso, imediatamente. Tem que estudá-las, entendê-las, experimentá-las, fazer inovações com elas.
- E como aplicar esses conhecimentos?
- Dando apenas um exemplo, a escola velha, a escola tradicional, a escola da sociedade industrial usava medo como estratégia. E quando eu falo medo como estratégia de ensinar, eu não estou falando só de medo de primeiro e segundo grau, estou falando de universidade! Nós temos pesquisas que mostram como o medo campeia dentro da Universidade em vários lugares do mundo - não só no Brasil. Então, o medo é altamente limitador, é uma estratégia péssima porque o cérebro bloqueia e não aprende. Não há aprendizagem em ambiente de medo. Os alunos entram na sala de aula, e têm medo da prova, da bronca do professor, da nota...
- O que acontece com isso?
- Diminui a capacidade do cérebro. E diminuindo a capacidade do cérebro, aprendem muito mal. Na verdade, o que nós precisamos é de novas pesquisas. Tem um repertório enorme de pesquisas sobre o cérebro, como é que funciona, que tipos de estratégias que fazem o cérebro funcionar bem, de uma maneira inteligente, e que tipos de estratégias fazem ao cérebro um movimento contrário de aprendizagem. Os professores brasileiros precisam estudar, discutir, experimentar, testar e estar abertos às novas mudanças, porque as escolas do primeiro mundo já estão nessa direção. Por exemplo, a aprendizagem do cérebro, múltiplas inteligências - nós temos nove inteligências -, as crianças no jardim de infância, das melhores escolas do mundo, sabem todas as inteligências, sabem de cor naturalmente, ninguém as colocou para estudar aquilo.
- Esses conhecimentos estão disponíveis no dia a dia de cada uma delas?
- Elas estão tomando posse de conhecimentos que estão no dia a dia, nos jornais e nas revistas. Os professores fazem questão de ensinar esses conhecimentos às crianças dentro da sua idade propícia. Por exemplo, nós temos que ensinar nossos alunos de 1º e 2º grau, como usar bem o cérebro, como desenvolver o cérebro. É uma escola moderna passando por uma revolução. É uma escola que desafia terminantemente o cérebro. Isso é a escola do século 21! Uma escola em que o cérebro é respeitado, a maneira de aprender do cérebro é respeitada, ao mesmo tempo em que é desafiado o tempo todo. Trata-se de uma escola alegre, uma escola que desafia o aluno com projetos interessantes - que eles gostem -, têm relevância, significado, não são aqueles projetos que são feitos de cima para baixo, mas projetos discutidos com os alunos, com a participação deles. Quando eles escolhem, participam, eles se entregam, estudam mais do que o necessário e desenvolvem todas as suas inteligências neste tipo de aprendizagem.
- Se fôssemos traçar um paralelo hoje, quais as carências mais urgentes da educação do Brasil? Se fôssemos comparar, por exemplo, com a educação dos Estados Unidos, de países da Europa, o que seria necessário?
- Não tinha esse padrão. O que nós temos é que estudar. Nós, professores, temos que estudar, nos encontrar, discutir, aprender e experimentar. Acontece que esses países estão muito mais abertos às mudanças. Essa e outras pesquisas estão chegando às escolas muito rápido no primeiro mundo, nos Estados Unidos e em outros países. Então, os professores motivados começam a estudar, aprender, discutir, um faz, outro faz e trocar experiências. Há uma emulação, uma verdadeira emulação nas escolas de primeiro mundo em termos de desenvolvimento dos alunos, para preparar uma escola que seja compatível com o desenvolvimento do talento.
- Qual o foco dessas escolas?
- Hoje, a verdade é que essas escolas estão voltadas para aquilo que é considerado a coisa mais importante: desenvolver o talento das crianças! A escola velha, tradicional, da sociedade industrial, autoritária, só tem uma preocupação, que é despejar conteúdos, fazer com que os alunos decorem, com que eles se desenvolvam nas provas. E essa é a escola que nós temos em grande parte do Brasil. Trata-se de uma escola velha, tradicional e cerrada nela mesma. Enquanto que na sociedade do conhecimento, a escola é totalmente nova, uma escola aberta, uma escola para participação de pais, principalmente. Os pais estão dentro da escola, isso é uma característica das escolas mais importantes do mundo. As escolas mais modernas, as mais abertas, não só querem a participação dos pais, porque sabem que só assim vão chegar a um padrão de qualidade que é o exigido pela sociedade, pelas suas diferentes sociedades.
- Qual é a diferença entre a sociedade industrial e a do conhecimento?
- A diferença entre essas duas sociedades é o foco que a escola tinha em cada uma dessas sociedades. A sociedade industrial precisava de um trabalhador manual, que fizesse tarefas repetitivas, que obedecesse às ordens. A escola preparou esse trabalhador manual, a escola era tradicional.A escola tinha que excluir os piores, tinha que selecionar a mão de obra barata, de baixa qualificação. Isso é que ela preparava. Uma escola de repetição de informações, ou seja, uma escola que exigia que os alunos memorizassem, devolvessem, na prova, tudo aquilo que tinham decorado, porque assim é que se formava um trabalhador manual. A elite era formada nas melhores escolas de antigamente, mas o trabalhador manual... Separavam o joio do trigo! O joio era o trabalhador manual e esse era preparado para tarefas repetitivas, rotineiras. O outro, a elite, esse tinha outra formação. Agora, nós não estamos mais nessa sociedade, essa sociedade não é mais a sociedade do mundo moderno.
- O que caracteriza a sociedade do mundo moderno?
- A sociedade do mundo moderno é a sociedade do conhecimento. Não só de buscar conhecimento, mas, também, de se preocupar com o que fazer com o conhecimento. Essa escola, da terceira onda, da sociedade do conhecimento, é outra. O conhecimento entra, sim, numa escola, mas entra como coadjuvante, como a base a partir da qual vai se desenvolver o talento, as inteligências, aprender a falar. Por exemplo, na escola tradicional não se aprendia a falar, impossível uma escola moderna onde não se aprenda a falar, porque a sociedade exige. Se for para uma empresa, para qualquer empresa, essa empresa vai exigir que tenha a capacidade de falar em público. O trabalhador tem que sair da escola preparado, com algumas capacidades que são fundamentais para o mundo moderno.
- Quais as capacidades que devem ser desenvolvidas?
- Ao trabalhador do conhecimento são exigidas certas capacidades, que são fundamentais, como: saber escrever um projeto, um documento, coisas que os pais, que estão na sociedade moderna, sabem, porque está sendo exigido deles. É por isso que esses pais de alunos das melhores escolas estão tentando mudar a escola, e elas, juntamente com esses pais, estão se transformando em um movimento muito bonito de dentro para fora. Claro que os professores vão ter que mudar a cabeça. A cabeça dos professores é fundamental! A disposição para aprender, experimentar e mudar é fundamental...
- Parece que no Brasil acontece o inverso. A escola, ao invés de ser um lugar acolhedor e de transformação, se transformou em um local de medo, ambientes com situações hostis, como o bullying, a violência social... Como é que a senhora vê isso?
- O problema do bullying é mundial. É um problema tão sério, que no Japão nós temos uma quantidade enorme de crianças que se matam, se suicidam por causa da pressão social. O bullying, na verdade, é uma violência cometida por um grupo forte. Pode chegar à violência física, mas normalmente começa com uma violência psicológica, de levar você para baixo, mexer com sua autoestima, desvalorizar, rir e ridicularizar a pessoa. É uma violência de nível psicológico que um grupo, de uma forma covarde, porque são quatro, cinco, dez alunos, que se juntam para fazer isso. E aí usam os telefones celulares para falar horrores para a pessoa. Usam a internet, desmoralizam! No Brasil, nós tivemos problemas sérios. Uma sociedade bastante violenta, e esta violência está chegando à escola. Claro que os pais estão muito preocupados com isso! Eu falo sobre a educação do caráter, sobre os valores que devem presidir essa família nova, da terceira onda.

- Quais os valores e o que essa família tem que fazer para viver nesse contexto social em que está inserida?
- Nós estamos em outro contexto social, que é totalmente diferente do contexto social da sociedade industrial, que era autoritária, tinha um papel bastante claro. Na sociedade industrial e na sociedade do conhecimento, os papéis mudaram: com a saída da mulher - que era a grande transmissora de valores - para o mundo do trabalho, os pais pensaram que caberia à escola a transmissão desses valores, mas a escola não ouviu o pedido dos pais de ajuda para a transmissão de valores, e se recolheu, então, nós chegamos a um impasse. O bullying vai ser o grande impulso para que pais e professores trabalhem juntos, próximos, para resolver alguns problemas. A educação do caráter é importante no mundo de hoje. A família se retirou um pouco e a escola nunca assumiu.
- O bullying é uma consequência. Na verdade, não é a causa, é o efeito. Reflete o que vem de casa, de caráter e de valor, uma falha na formação- família que está se transformando em um vírus...
- Faço palestras sobre a educação dos valores, a educação do caráter. Nelas, eu analiso como você pode desenvolver o caráter dos seus filhos. Eu não só falo sobre o caráter, mas sobre estratégias, que eu chamo de “círculo do diálogo”. A família moderna tem que aprender a ter um círculo do diálogo, inclusive sentados no chão, em volta de uma mesa, e que isso seja uma norma na família. Essa família junta discute os problemas que vivenciam, e o que são as regras da família, os valores, qual é a pauta de valores que preside essa família. Por exemplo, gentileza faz parte da pauta de valores? Todos da família vão ter que tratar uns aos ouros com gentileza e se, no caso, nessa estratégia, que é o círculo do diálogo, forem rompidas as regras, de uma forma democrática, novamente a família volta a se reunir para discutir a quebra daquela regra, daquela norma, daquele valor, e o que vai acontecer... Deixa de ser uma imposição de pai e mãe, como era na família velha, e agora é uma decisão conjunta da família.
- Os pais também são cobrados?
- Os pais também são cobrados, sim! A atitude que eles têm entre si, quais são os valores que testam, por exemplo: não às drogas. Não se abre mão disso, isso é um valor inegociável - não às drogas e à violência. Entre dois irmãos não pode haver violência, e se houver, reúne-se o círculo do diálogo para discutir e trabalhar essas questões. Para educar, temos que trabalhar com as crianças, pais e filhos.
- Por que as mudanças recebem uma enxurrada de críticas?
- As mudanças na educação normalmente recebem muitas críticas, é verdade. Porque a atitude mais cômoda, que tem a ver com a visão velha de educar, é deixar como está. Não dá trabalho, não tem mudança, não dá problema. Vamos deixar como está, e aí fica tudo bem. Só que não fica tudo bem para os alunos, que estão em outra sociedade, em outro contexto social, outra realidade. Não fica bem para os pais, que estão vivendo uma conjuntura totalmente diferente do que aquela vivida anteriormente pelos avós e bisavós, que são a escola velha. Mas essa escola, por comodismo, não muda. Há, realmente, uma atitude negativa de comodismo da escola brasileira de não mudar, deixar como está.
- A senhora concorda que o mundo está dividido em três blocos de pessoas? As que são contra a ideia, as de vanguarda e aquelas que ficam no meio termo?
- Se fosse codificar esses grupos, eu diria: 20% está no grupo de vanguarda, e esses 20% é que movem a humanidade. Os outros 80%, 40% são aqueles que puxam para trás, que não querem mudança, que pensam que não interessa, que dá trabalho. Os outros 40% são os que estão no meio termo. O homem chegou ao espaço, está entrando no espaço sideral. Toda essa inteligência fantástica do homem para chegar a outros mundos é liderada por esses 20%. São as pessoas inteligentes, que sabem mudar. Não pode permanecer como está, não há como uma sociedade evoluir, se nós ficarmos com os mesmos paradigmas, as mesmas maneiras de ser... Esses 20% lideram, gritam pelo movimento e vão fazendo as mudanças que são necessárias. Em função de quê? Em função da necessidade da sociedade.

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