O jovem Senhor Gonçalo
Fonte: O POVO Online
Gonçalo M. Tavares lança no País mais dois títulos da série O Bairro. Em visita ao Brasil, o escritor angolano foi o destaque da 14ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, evento que se encerra hoje
Pedro Rocha
ENVIADO A PASSO FUNDO (RS)pedrorocha@opovo.com.br
A passagem de Gonçalo M. Tavares, 41, por Passo Fundo, interior do Rio Grande do Sul, durante a 14ª Jornada Nacional de Literatura, consistiu-se quase integralmente em responder perguntas sobre seu processo criativo, se escreve no computador, de dia ou de tarde, se pesquisa o tema antes de começar um livro, se planeja a estrutura do romance, se imagina a recepção do leitor ao escrever, perguntas sobre como havia construído uma bibliografia de mais de duas dezenas de obras em tão pouco tempo ou, no fim das contas, como você arruma as palavras deste jeito extraordinário.
Quando ele venceu o Prêmio José Saramago, em 2005, pelo livro Jerusalém, o próprio Saramago colocou a mesma questão de outra forma: “Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!”. O elogio se tornou cartão de visitas do escritor nascido em Luanda, Angola, em 1970, que só publicou o primeiro livro em 2001 e de lá para cá não parou de emendar romance, conto, poesia e afins. O recente Uma viagem à Índia (Editora Leya) é prova disso. Lançado no começo deste ano no Brasil, o livro é uma espécie de epopeia do século XXI.
Diante de tais perguntas, Gonçalo satisfez curiosidades: “A minha forma de escrever é quase instintiva. Escrevo muito rápido. Sento e, quando as coisas correm bem, estou quatro horas a escrever seguidas, quase sem levantar a cabeça. Depois é que demoro muito tempo para rever, corrigir. Às vezes posso numa manhã escrever 15 páginas e às vezes demoro um mês para rever essas páginas. Às vezes, rever significa transformar essas páginas em quatro”.
Barba rala, pele morena, cabelos pretos encaracolados, ele andou na última quarta pela Universidade de Passo Fundo, com passos lentos, o corpo um tanto curvado, pendendo para um dos lados a depender do peso da mochila, nem tanto ao chão, nem somente ao horizonte. Em sua fala na Tenda da Cultura, na mesa Identidade, literatura e cultura na globalização, para um público de aproximadamente cinco mil pessoas, ele contou a lenda de uma mulher que era estrábica ao ponto de às quartas-feiras ter os olhos simultaneamente no domingo anterior e no que estava por vir.
“Esta personagem vesga é exemplar do que nós devemos ser, quer como País, quer pessoalmente. Ou seja, nós temos nossos pés na quarta-feira, estamos a olhar para o domingo anterior, isto é, temos a noção clara da história do nosso país ou família, por outro lado estamos a olhar para o domingo seguinte, ou seja, temos desejos, temos um projeto”, disse.
O raciocínio parabólico do radicado português foi ponto alto da jornada – um dos maiores do gênero no País. Afora a lenda da vesga, Gonçalo ainda narrou o costume cigano de deixar sempre ao pé de cada encruzilhada uma maçã indicando para que lado a caravana dobrou, no intuito de orientar os que vêm atrás. Para ele, cada geração tem o direito de encontrar uma maçã (independente do lado que decida virar) e o dever de deixar outra para a geração posterior.
“A identidade que me parece mais estimulante pode ser definida por uma personagem assim: um vesgo que na quarta-feira olha para os dois domingos e que transporta uma maça”, concluiu.
De Passo Fundo, o escritor segue para o Rio de Janeiro, onde participa próxima semana da Bienal do Livro do Rio de Janeiro - que acontece de 1º a 11 de setembro. Gonçalo também deve lançar mais dois títulos da série O Bairro, publicada pela Casa da Palavra. Criadas a partir de personagens inspirados em grandes escritores, cada obra da série reúne contos que perfilam um morador ilustre do bairro arquitetado por Gonçalo.
O senhor Valéry e a lógica da literatura remete ao filósofo e poeta francês Paul Valéry (1871-1945) e O senhor Swedenborg e as investigações geométricas, Emanuel Swedenborg, cientista e teólogo sueco, considerado precursor do espiritismo. Os dois juntam-se aos senhores Brecht, Calvino, Walser, Breton, entre outros célebres pensadores. Nenhum brasileiro ou português chegou ainda ao Bairro, mas Gonçalo já afirmou que Machado de Assis e Clarice Lispector seriam muito bem-vindos. O Sr. Pessoa já está no croqui do Bairro, mora no prédio do Sr. Pirandello e deve ganhar sua obra. O fato é que o próprio Sr. Gonçalo já é um postulante à vizinhança
O REPÓRTER viajou a convite da organização da Jornada Nacional de Literatura.
Por quê
ENTENDA A NOTÍCIA
O escritor Gonçalo M. Tavares está no Brasil para participar dos eventos Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e da Bienal do Livro do Rio de Janeiro. A bienal carioca abre no próximo dia 1º de setembro
BASTIDORES
Ao saber da cidade-natal do repórter, Gonçalo contou que antes de vir a Passo Fundo esteve 10 dias em Jericoacoara e outros dois na capital cearense.
Durante almoço, ele disse ter sido um grande admirador dos Engenheiros do Hawaii na juventude.
Ignácio de Loyola de Brandão, debatedor fixo do evento, não poupou elogios a Gonçalo e afirmou ter dois escritores portugueses dos quais gosta, o próprio Gonçalo e José Cardoso Pires.
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