Mulheres em empresas impulsionam boom de restaurantes e serviço de entrega
Mariana Della Barba
Da BBC Brasil em São Paulo
Desde que começou a trabalhar em uma escola de idiomas, a recepcionista Ana Carolina Naranjo dos Santos, de 20 anos, trocou as refeições que ela própria cozinhava por lanches e salgados.
"Antes eu fazia o almoço e o jantar. Agora, pedimos pizza umas duas vezes por semana. Também parei de fazer a marmita para o meu marido. Agora ele recebe ticket (refeição) e come lá perto do trabalho dele. É mais prático", diz Ana Carolina.A mudança nos hábitos da secretária e de seu marido é uma tendência que vem se solidificando no Brasil, na esteira do aquecimento do mercado de trabalho, conforme mostra uma pesquisa inédita do Data Popular.
Um dos motores dessa mudança é justamente a maior presença feminina no mercado de trabalho.
"Primeiro, porque a mulher agora trabalha e precisa comer fora. Mas também porque os afazeres profissionais não lhe dão mais tempo de cozinhar para o marido, que passa a pagar por sua refeição fora também", diz Renato Meirelles, sócio-diretor da Data Popular.
Disk-pizza e congelados
Além das lanchonetes e restaurantes, as mulheres impulsionaram também o mercado de delivery e de comida semipronta congelada, cuja adoção por parte das classes emergentes surpreendeu a direção da Data Popular.
Hoje, de acordo com o levantamento, oito em cada dez brasileiros que costumam fazer pedidos de entrega em domicílio são das classes C, D e E.
Do total da população brasileira, 45,6% usam restaurantes delivery. Destes, mais da metade (51,8%) pertence à classe C e o restante é dividido entre classe A e B (22%) e D e E (26,2%).
Sem ficar o dia todo o casa, famílias também recorrem a pratos congelados, comprados por 58% dos setores A e B; 44% por C e 65% D e E.
O fim da marmita?
A maior participação das brasileiras no mercado de trabalho acabou tendo impacto também em como os homens se alimentam.
Assim como o marido de Carolina, sem esposa em casa, muitos trabalhadores estão deixando de levar marmita.
Essa tendência, no entanto, não se explica apenas pela ida da mulher às empresas, como explica o sociólogo Fábio Mariano Borges, especialista em comportamento do consumidor e professor de Ciências do Consumo Aplicado da ESPM.

O pedreiro Manuel Alves almoça às vezes em restaurantes, porque 'marmita cansa'
"Isso se explica tanto pela nova posição da mulher como pela falta de tempo de ambos de fazer compras no mercado, e pela praticidade de se comer em restaurantes, que servem pratos feitos (PFs) a preços acessíveis", afirma.
"Em São Paulo, por exemplo, a dificuldade de se carregar a comida por várias horas em diversos meios de transporte também é um ponto contra."
'Eu mereço'
Almoçando em uma lanchonete na região oeste de São Paulo, o pedreiro Manuel Alves, de 51 anos, conta que intercala os PFs com a comida que traz de casa.
"Marmita cansa. Minha mulher até cozinha bem, mas mesmo assim a gente enjoa. Fora que dependendo da obra em que estamos, não tem onde esquentar", diz.
Manuel acrescenta que às vezes vale a pena gastar um pouco mais para comer o arroz, feijão, carne e batata frita servidos na lanchonete por R$ 12.
Para Borges, da ESPM, esse pensamento de que às vezes vale a pena comer fora permeia hoje todas as classes sociais, não apenas A e B.
"É o que chamamos de autoindulgência. 'Trabalho tanto o dia todo que mereço não ficar com a barriga no fogão. Vou pedir uma pizza'. E isso vem crescendo", afirma o professor.
Ele explica que isso se deve também à melhora nas opções de delivery e ao fato de esses serviços serem mais acessíveis, inclusive aceitando vale-refeição e fazendo descontos.
"Hoje, qualquer pizzaria oferece promoções de juntar cupons para trocar por refrigerantes ou pizza grátis, seja nos bairros de maior poder aquisitivo até no disk-pizza de Cidade Tiradentes
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