sábado, 27 de agosto de 2011


Foto: Divulgação


Conheça a mulher que quer roubar a cena guiando um F-1


odia.terra
Madri (Espanha) - A inglesa Katherine Legge (com uma Minardi, em 2005) foi a última mulher a pilotar um carro de Fórmula-1, mas a espanhola María de Villota Comba está no caminho certo para mudar a história. Ela fez um teste, dia 3 de agosto, na Lotus-Renault do russo Vitali Petrov, uma experiência que classificou como inesquecível. Afinal, ela realizou o sonho de guiar um F-1 e copiar seu pai, Emilio, mas tem outros planos: correr com os grandes pilotos no Mundial da categoria.

MARCA: É um privilégio ser a primeira espanhola a correr de F-1?

MARÍA VILLOTA:  O sonho de qualquer piloto é ter essa oportunidade. Ainda mais em uma equipe como a Renault. Chegou minha oportunidade e estou muito feliz. Foi um sonho.

M: Como veio a chance?

MV: Me chamaram da Renault. Foi tudo muito rápido. Apenas tive tempo de pensar. Fisicamente corria como na Superleague, estava no auge. Me deixaram fazer um teste na Renault, em Paul Ricard, na França, de 300 km, na qual eu teria de provar minhas condições. Fui uns dias a Enstone para fazer as provas físicas.

M: Que provas vocês fez?

MV: Provas para ver o meu estado de saúde, exame de sangue, capacidade pulmonar, resistência e cardiovasculares. Os resultados foram bons. Eu sabia que estava forte porque treino muito duro e tenho um preparador de pilotos da F-1. Logo me colocaram para correr em Paul Ricard. O teste foi muito bom, antes me explicaram como tudo funciona.

M: O volante, chio de botões, é uma confusão de tantos comandos, não?

MV: Sim, mas como tudo que você gosta, você controla. Desde o minuto que começou esse sonho vivi dias incríveis.
A bela se anima com a chance de entrar para a principal categoria do automobilismo | Foto: Divulgação
M: Você agora já pode morrer tranquila, plenamente realizada?

MV: Não, agora que o teste foi bom eu quero mais (risos). Mas, quando as coisas vão bem como neste dia, posso dormir tranquila. Dá uma satisfação impressionante. Foi o dia que mais desejei na minha vida.

M: O carro é muito duro, realmente deixa o ombro dolorido?

MV: Sim, o ombro fica muito dolorido. Em Paul Ricard há duas curvas impressionantes que faz você chegar perto do 4G. Mas gostei mais do que imaginava.

M: E dentro do carro?

MV: Não sei como descrever. A equipe estava muito aberta comigo, foi me explicando, muito natural... Não foi chegar de repente e ver o que ocorria. Me familiarizei com o volante e então me deixar dirigir. O engenheiro-chefe me dava coordenadas pelo rádio. Mas em nenhum momento fiquei perdida, no limite. O que acontece em um F-1 é impressionante.

M: O que é o melhor?

MV: A freagem, a aerodinâmica. Você pode entrar em uma curva até o fim, o carro responde muito bem.

M: Muita diferença com os carros da Superleague?

MV: Sim, são carros totalmente diferentes. O Superleague é um carro muito mais pesado, você precisa de mais agressividade para dirigir. No F-1 é o contrário. O Superleague é muito grande e potente, bruto, e isso ajudou no meu físico.

M: Como você se sentiu ao se sentar no Renault?

MV: Em Enstone, quando sentei no carro, eu flutuava. Já em Paul Ricard, realmente o ambiente era muito bom. Já me conheciam e me fizeram curtir o teste de uma forma que eu não imaginava. Estava cômoda. Lembro da primeira vez que subi no Superleague, quando havia muito mais tensão. No fim do dia tudo saiu bem. Graças a todo mundo, que me deram muita informação, me ajudaram a curtir o momento.

M: Eric Boullier disse que você não errou.

MV: Eu não sabia como seria e ninguém esperava muito de mim. Desde que comecei a treinar senti que tinha que seguir a equipe. Tudo saiu bem e eles ficaram felizes. Superamos as expectativas e superei as minhas. Houve química com toda a equipe.

M: O que falaram dos seus tempos?

MV: Me disseram que os meus tempos foram muito melhores do que esperavam.

M: O seu pai, o ex-piloto de F-1 Emilio de Villota, estava lá?

MV: Sim, e alucinado. Ele disse que nunca na sua vida tinha passado medo comigo e que neste dia sofreu como nunca. Falamos muito pouco durante o teste, ele não comentou nada comigo até o fim do dia. Depois me falou sobre a impressão da brutal velocidade e que estava feliz. Ele é muito crítico comigo, mas gostou bastante de ver a filha ao volante de um F-1.

M: Bernie Ecclestone falou com você?

MV: Meu agente tem contato direto com ele e ele soube disso tudo.

M: Para ele ter uma mulher na categoria é um desafio. Porque não María de Villota?

MV: Isso espero. A verdade é que agora penso em me preparar bem. Física e esportivamente estou no meu melhor momento, o teste comprovou isso.

M: Virão outros testes?

MV: Nossa relação com a Renault é muito boa e eles me deram essa oportunidade. Eu tenho a determinação de estar na Fórmula-1 e estou dando os meus primeiros passos. Mas vamos ver o que ocorre no futuro. Espero ter nova chance.

M: A chance não é tardia?

MV: Não, chega no momento certo. Estou no meu auge e tenho anos de experiência. Acredito que é a nossa oportunidade, o nosso momento. Agora é trabalhar e aproveitar.

M: Agora terá de enfrentar a batalha para ter a superlicença, não?

MV: Bom, faço tudo que me dizem, mas isso não é comigo. É fato que depois de correr 300 km na F-1 você pode lutar por ela. Mas tudo vai a seu tempo. Tenho que estar preparada para o que vier.

M: Uma mulher pode ser uma boa estratégia de marketing. Você sofre em pensar que tudo pode ser uma estratégia comercial?

MV: Não acredito nisso. Estou segura que não é uma estratégia. Sou mulher e sei do diferencial que tenho em relação a outros pilotos. Mas é assim. Um é piloto por ser de um país onde são loucos por F-1, outro por ser muito jovem, outro por ser mulher... Sei do meu potencial e qual nível esportivo que tenho que ter. Estou toda minha vida fazendo isso. Fui vice-campeã da Fórmula Espanha. Ser mulher? É um valor extra que joga a meu favor, mas não é isso que decide no esporte, o que vale é o conjunto, quando tudo se encaixa. Se eu não tivesse valor esportivo não teria corrido, não teria feito o teste. Tenho esse diferencial, mas tenho que mostrar valor em outras áreas.

M: Você está mais perto que nunca da F1?

MV: Sim, já pilotei na categoria e estou pronta para seguir adiante. Sou consciente que estamos mais perto e que minhas possibilidades nunca foram tão boas.

M: Você gostaria de ser uma pioneira entre as mulheres no futuro?

MV: Não gosto de me pensar como pioneira, gosto de me ver como alguém a quem querem dar um voto de confiança e que sabem que posso conseguir. Não quero ser única nem especial, simplesmente lançar uma mensagem de confiança para as mulheres que acreditam que valem para o esporte.

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