quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Mulheres deixam de fazer o exame Papanicolau por vergonha
Agência Notisa (science journalism – jornalismo científico)

Agência Notisa – O câncer de colo de útero é responsável pela morte de 230 mil mulheres por ano. Por só começar a apresentar sintomas em estágios mais avançados, a existência da doença é ignorada por muitas mulheres, o que em muitos casos pode ser fatal.

No artigo “Percepção da vulnerabilidade entre mulheres com diagnóstico avançado do câncer do colo do útero”, publicado na edição de abril/junho deste ano da revista Texto & Contexto Enfermagem, a professora Ana Maria de Almeida, da Universidade de São Paulo, e equipe mostram a relação dessas pacientes com as fragilidades impostas pela doença e discutem a implementação de novos métodos preventivos.

Os pesquisadores entrevistaram 12 mulheres que estavam sob tratamento para câncer de colo de útero em estágio avançado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

A maioria afirmou que ou não fazia o exame Papanicolau com a regularidade prescrita pelos médicos (uma vez por ano) ou nunca havia sido submetida ao teste.

No grupo, a descoberta da doença veio principalmente através de sangramentos vaginais de grande intensidade ou lesões na bexiga, que caracterizam uma fase mais avançada do câncer.

Através de entrevistas, os autores constaram que a vergonha causada pelo procedimento de coleta é um dos principais fatores que impedem as mulheres de se prevenirem. “A exposição das partes íntimas e a posição ginecológica, exigidas para a realização do exame, o toque ginecológico, a introdução do espéculo, da espátula e da escova para coleta via vaginal estão entre os fatores que podem esquivar a mulher da coleta”, explicam os autores no artigo.

Além disso, o estudo ressalta que as mulheres também sofrem com a falta de informação e a deficiência do sistema público de saúde.

Os pesquisadores alertam para casos em que o exame não é solicitado durante consultas ginecológicas ou a paciente não recebe orientações em uma linguagem que possa entender, gerando confusões sobre as funções e necessidades de diversos exames.

Outro problema constatado foi a falha estrutural das unidades públicas de atendimento, o que acarreta em uma longa espera para conseguir uma consulta e casos de extravios de exames.

Segundo o artigo, é necessário parar de culpar apenas a mulher pela aquisição da doença, pois a responsabilidade muitas vezes é de âmbito coletivo. “Os relatos evidenciaram a necessidade de se superar algumas deficiências no modelo de assistência e na humanização do atendimento, no grau de compromisso e na qualidade das instituições, dos recursos, do gerenciamento e do monitoramento dos programas de prevenção e detecção do câncer do colo do útero, nos diferentes níveis de atenção”, ressaltam os pesquisadores.

Na esfera pessoal, o estudo constatou que as pacientes também sofrem com problemas emocionais e psicossociais relacionados a enfrentar uma doença sem cura e a iminência de perder um órgão de importante valor simbólico como o útero. “As mulheres se deparam com suas vidas tomando um rumo diferente do que poderiam imaginar, porque o câncer pode acarretar alterações significativas nas diversas esferas da vida como trabalho, família e lazer”, comentam os pesquisadores. “Vislumbrar o futuro passa a ser muito doloroso, já que os tratamentos propostos implicam em possível mutilação, náuseas, vômitos, alopecia, além de alterações sexuais”, destacam na publicação.

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